segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O HORIZONTE DAS PALAVRAS

 
 
ANTÓNIO RAMOS ROSA, in ACORDES

 Sem direcção, sem caminho
... escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra,
as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,
um organismo verde aberto sobre o mar,
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.

LUÍS VAZ DE CAMÕES, in LÍRICA COMPLETA

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

domingo, 25 de dezembro de 2011

NATAL

 
 
 
MIGUEL TORGA, in ANTOLOGIA POÉTICA 

 
Outro natal,
... Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.

sábado, 24 de dezembro de 2011

QUEM ÉS TU

 
 
 
 
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in OBRA POÉTICA

...
Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

DE ESPERAS CONSTRUÍMOS O AMOR INTENSO E SÚBITO





JOAQUIM PESSOA, in OS OLHOS DE ISA


De esperas construímos o amor intenso e súbito

que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.

Em estranhos desencontros nos amamos.

Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.

Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,

a tarde projectava as suas grandes sombras

enquanto as gaivotas disputavam sobre a água

talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.

As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias

E por muito tempo permaneciam assim, unidas,

Machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.

Depois olhávamo-nos nos olhos

No mais profundo silêncio. E, sem palavras,

Partíamos com as mãos docemente amarradas e os corações estoirando uma alegria breve

Quando a noite descia apaixonada

Como o longo beijo da nossa despedida.

URGENTEMENTE

 
 
 
EUGÉNIO DE ANDRADE, in ATÉ AMANHÃ



É urgente o amor.
... É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

A aldeia onde nasci não é de ninguém

 
 
 
 
JOSÉ MARIA ALMEIDA, in AMO UM ANJO


A aldeia onde nasci não é de ninguém.
... É pequenina, metida no coração de alguém,
mas nela nasci do ventre de minha mãe
e nela cresci.

A aldeia onde nasci é todo o universo;
é uma estrela que esteja onde estiver
me mostra por onde devo voltar;
é uma seta na encruzilhada
que me indica o caminho de casa;
é a bússola de marinheiro
que me afasta do sol poente
e me chama para onde está
a mulher que me ama;
é o grito de minha mãe que me chama
e em seu colo me aninha como uma eterna criança.

A aldeia onde nasci é a árvore de que sou fruto;
é a semente que foi lançada à terra
e do húmus que absorveu
e das tempestades que sofreu
se fez mulher com um coração
que em mim palpita, que me dá a vida
e me guarda a morte para a hora que lhe aprouver.

A aldeia onde nasci não tem casas
nem ruas estreitas:
são estradas que se estendem até ao horizonte
descendo até ao fundo de mim.
As pessoas que a habitam
são aquelas que eu trouxe
guardadas na alma e que todos os dias vejo
a olharem-me no espelho
em cada manhã com um rosto diferente,
mas sempre as mesmas pessoas
que eu fiz e amei e comigo guardei.

A aldeia onde nasci deu-me tudo o que tenho
e por isso a trago sempre comigo.