As palavras do poeta volteiam incessantemente em redor das portas do paraíso e batem implorando a imortalidade. Um grão de poesia basta para perfumar todo um século! O poema é o dedo do poeta apontando para o vôo do pássaro que está além das suas palavras.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in LIVRO SEXTO
...
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
COMEMORAÇÃO DO DIA DE REIS
Reis leva-os há muito tempo atrás. Segundo a primitiva liturgia, no dia 6 de Janeiro celebrava-se a comemoração do Natal, da Epifania ou manifestação de Deus, o Baptismo de Jesus e o milagre das Bodas de Canaã. Só a partir do séc. V é que a adoração dos Reis Magos começou a ser celebrada no Ocidente. Foi também nessa altura que se decidiu separar a Epifania do Natal, que passou para o dia 25 de Dezembro.
No início, os Reis Magos eram representados quase sempre por dois, quatro ou seis personagens e unicamente como magos. O número três só ficou estabelecido a partir do séc. IV. Os nomes pelos quais hoje são conhecidos surgiram apenas um século depois e até o século VI não se encontram registos do título de reis. No séc. XVI foi introduzido o traço racial, aparecendo pela primeira vez um Baltazar preto. Os três reis foram identificados como Sem, Cam e Jafé, os três filhos de Noé, que segundo o Antigo Testamento, representavam as três raças que povoavam o mundo. Desta forma, Melchior, o ancião de cabelos brancos, simboliza os herdeiros de Jafé, os europeus que oferecem ao Menino Jesus um presente de ouro que testemunha sua realeza. O louro e jovem Gaspar representa os semitas da Ásia, cujo bem mais apreciado é o incenso, símbolo da sua divindade, e Baltazar, negro e com barba, identifica-se com os filhos de Cam, os africanos, que entregam a mirra, em alusão à paixão e ressurreição.
A Bíblia relata como uma estrela guiou os três Reis Magos desde o Oriente e indicou o lugar onde se encontrava o Menino Jesus ao deter-se sobre o presépio. Muitas são as teorias que tentam explicar este milagre. Entre elas, está a de que se tratava do brilhante planeta Vénus, da passagem dos cometas Halley ou Hale-Bopp, de uma supernova, uma ocultação da Lua... Uma das hipóteses mais aceites foi a proposta por Johannes Kleper em 1606. Segundo este astrónomo, tratar-se-ia de uma rara tripla conjugação da Terra com os planetas Júpiter e Saturno, passando o Sol nesse momento por Peixes. Esta conjugação apresenta-se aos olhos do observador terrestre como uma só estrela muito brilhante. Outra hipótese mais recente é a de que se tratava de uma nova estrela brilhante observada próxima da estrela Theta Aquilae. A estrela de Belém é relembrada situando-a tanto na representação do presépio como na ponta da árvore de Natal.
A HISTÓRIA DA ÁRVORE DE NATAL
A Árvore de Natal é um pinheiro ou abeto, enfeitado e iluminado, especialmente nas casas particulares, na noite de Natal.
A tradição da Árvore de Natal tem raízes muito mais longínquas do que o próprio Natal.
Os romanos enfeitavam árvores em honra de Saturno, deus da agricultura, mais ou menos na mesma época em que hoje preparamos a Árvore de Natal.
Os egípcios traziam galhos verdes de palmeiras para dentro de suas casasno dia mais curto do ano (que é Dezembro, nio solstício de Inverno), como símbolode triunfo da vida sobre a morte.Nas culturas célticas,os druídas tinham o costume de decorar velhos carvalhos com maçãs douradas para festividades também celebradas na mesma época do ano.
Segundo a tradição, S. Bonifácio, no século VII, pregava na Turíngia (uma região da Alemanha) e usava o perfil triangular dos abetos como símbolo da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). Assim, o carvalho, até então considerado como símbolo divino, foi substituído pelo triangular abeto.
Na Europa Central, no século XII, penduravam-se árvores com o ápice para baixo em resultado da mesma simbologia triangular da Santíssima Trindade.
A primeira referência a uma “Árvore de Natal” surgiu no século XVI e foi nesta altura que ela se vulgarizou na Europa Central. Há notícias de árvores de Natal na Lituânia em 1510.
Diz-se que foi Lutero (1483-1546), autor da Reforma Protestante, que após um passeio, pela floresta no Inverno, numa noite de céu limpo e de estrelas brilhantes, trouxe essa imagem à família sob a forma de Árvore de Natal, com uma estrela brilhante no topo e decorada com velas, isto porque para ele o céu devia ter estado assim no dia do nascimento do Menino Jesus.
O costume começou a enraizar-se. Na Alemanha, as famílias, ricas e pobres, decoravam as suas árvores com frutos, doces e flores de papel (as flores vermelhas representavam o conhecimento e as brancas representavam a inocência). Isto permitiu que surgisse uma indústria de decorações de Natal, em que a Turíngia se especializou.
No início do século XVII, a Grã-Bretanha começou a importar da Alemanha a tradição da Árvore de Natal pelas mãos dos monarcas de Hannover. Contudo a tradição só se consolidou nas Ilhas Britânicas após a publicação pela “Illustrated London News”, de uma imagem da Rainha Vitória e Alberto com os seus filhos, junto à Árvore de Natal no castelo de Windsor, no Natal de 1846.
Esta tradição espalhou-se por toda a Europa e chegou aos EUA aquando da guerra da independência, pelas mãos dos soldados alemães. A tradição não se consolidou uniformemente dada a divergência de povos e culturas. Contudo, em 1856, a Casa Branca foi enfeitada com uma árvore de Natal e a tradição mantém-se desde 1923.
Como o uso da árvore de Natal tem origem pagã, este predomina nos países nórdicos e no mundo anglo-saxónico. Nos países católicos, como Portugal, a tradição da árvore de Natal foi surgindo pouco a pouco ao lado dos já tradicionais presépios.
Contudo, em Portugal, a aceitação da Árvore de Natal é recente quando comparada com os restantes países. Assim, entre nós, o presépio foi durante muito tempo a única decoração de Natal.
Até aos anos 50 do século XX, a Árvore de Natal era até algo mal visto nas cidades e nos campos era pura e simplesmente ignorada. Contudo, hoje em dia, a Árvore de Natal já faz parte da tradição natalícia portuguesa e já todos se renderam aos Pinheirinhos de Natal!
A origem dos presépios

Todos sabemos o que são presépios. Contudo importará certamente aos mais curiosos conhecer as origens dessas representações artístico-religiosas da Natividade. E para satisfazer essa curiosidade direi que a sua origem é de insondável memória, se bem que seja tradição fazê-la remontar ao século XIII, mais precisamente a 1224, altura em que S. Francisco de Assis fez representar ao vivo, e depois em barro, no eremitério de Gréccio nos Montes Sabinos, o nascimento de Cristo. Nessa lúgubre gruta o fundador da Ordem Franciscana ergueu junto ao presépio um altar sobre o qual rezou a missa da meia-noite. A tradição sacralizou-se e nesse local se edificaria um templo a S. Francisco em cujo altar figura um dos mais célebres quadros de Giotto no qual se apresenta o «Patriarca de Assis» precisamente a construir um presépio. De então para cá os templos católicos, pelo mundo espalhados, passaram a armar os seus presépios na quadra natalícia, em homenagem ao seu tradicional criador.
Com o decorrer dos séculos novos matizes se introduziram nos presépios, irradiando do seu centro religioso todo um espaço cénico verdadeiramente profano, mas ao mesmo tempo muito mais realista, que lhe emprestaria a animação e a alegria de algo que supostamente se movimenta, tem vida e está vivo. Para esse engrandecimento e persistente diversidade muito contribuíram os espanhóis, italianos, portugueses e austríacos, sendo de realçar na Península as escolas de Múrcia e de Mafra, que pela mão de Salzillo e de Machado de Castro se tomaram mundialmente célebres.

Todos sabemos o que são presépios. Contudo importará certamente aos mais curiosos conhecer as origens dessas representações artístico-religiosas da Natividade. E para satisfazer essa curiosidade direi que a sua origem é de insondável memória, se bem que seja tradição fazê-la remontar ao século XIII, mais precisamente a 1224, altura em que S. Francisco de Assis fez representar ao vivo, e depois em barro, no eremitério de Gréccio nos Montes Sabinos, o nascimento de Cristo. Nessa lúgubre gruta o fundador da Ordem Franciscana ergueu junto ao presépio um altar sobre o qual rezou a missa da meia-noite. A tradição sacralizou-se e nesse local se edificaria um templo a S. Francisco em cujo altar figura um dos mais célebres quadros de Giotto no qual se apresenta o «Patriarca de Assis» precisamente a construir um presépio. De então para cá os templos católicos, pelo mundo espalhados, passaram a armar os seus presépios na quadra natalícia, em homenagem ao seu tradicional criador.
Com o decorrer dos séculos novos matizes se introduziram nos presépios, irradiando do seu centro religioso todo um espaço cénico verdadeiramente profano, mas ao mesmo tempo muito mais realista, que lhe emprestaria a animação e a alegria de algo que supostamente se movimenta, tem vida e está vivo. Para esse engrandecimento e persistente diversidade muito contribuíram os espanhóis, italianos, portugueses e austríacos, sendo de realçar na Península as escolas de Múrcia e de Mafra, que pela mão de Salzillo e de Machado de Castro se tomaram mundialmente célebres.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
ESTES PEQUENOS PENSAMENTOS SÃO PEQUENAS ORAÇÕES
JOAQUIM PESSOA, in À MESA DO AMOR
Estes pequenos pensamentos são pequenas orações
... de fidelidade ao teu corpo. Quem dera
que escutasses, destas horas, o cantar do sul,
as persianas do vento debaixo das estrelas,
os meus passos lá fora sobre a relva, junto
a uma imensa rosa de água azul.
Está tão quieto o ar. Tão sem ar o ar,
que o amor sufoca. A cama tem apenas
o aroma dos pinheiros por lençol. Sobre a pele dos mares,
a curva dos teus lábios, nenhuma brisa sopra.
No umbral da porta a manhã aguarda o teu sorriso,
esse jeito de acordar os pássaros do sol.
No pequeno jardim, entre as rápidas chamas da sardinheira
e o fresco ardor da madressilva,
as abelhas procuraram já o teu perfume.
Estes pequenos pensamentos são pequenas orações
... de fidelidade ao teu corpo. Quem dera
que escutasses, destas horas, o cantar do sul,
as persianas do vento debaixo das estrelas,
os meus passos lá fora sobre a relva, junto
a uma imensa rosa de água azul.
Está tão quieto o ar. Tão sem ar o ar,
que o amor sufoca. A cama tem apenas
o aroma dos pinheiros por lençol. Sobre a pele dos mares,
a curva dos teus lábios, nenhuma brisa sopra.
No umbral da porta a manhã aguarda o teu sorriso,
esse jeito de acordar os pássaros do sol.
No pequeno jardim, entre as rápidas chamas da sardinheira
e o fresco ardor da madressilva,
as abelhas procuraram já o teu perfume.
OLHOS NEGROS
ALMEIDA GARRETT, in FLORES SEM FRUTO
Por teus olhos negros, negros,
... Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores...
E eles a dizer que não.
E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp'rança,
Mas fiar-me eu neles, não.
Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim...
Nunca mais dizem que não.
Por teus olhos negros, negros,
... Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores...
E eles a dizer que não.
E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp'rança,
Mas fiar-me eu neles, não.
Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim...
Nunca mais dizem que não.
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