As palavras do poeta volteiam incessantemente em redor das portas do paraíso e batem implorando a imortalidade. Um grão de poesia basta para perfumar todo um século! O poema é o dedo do poeta apontando para o vôo do pássaro que está além das suas palavras.
sexta-feira, 2 de março de 2012
VERBO SER
Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
... Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade
Amor e seu Tempo
Amor é privilégio de maduros
... Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais revolva,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não imprevisto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe
Valendo a pena o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. Amor começa tarde.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 1 de março de 2012
SONETO
ALEXANDRE O'NEILL, in NO REINO DA DINAMARCA
SONETO
Tempo das cerejeiras agressivas
... a avançar pelo meu quarto dentro.
Velho tempo das noites explosivas
Em que o sangue crescia como o vento!
Tempo - aproximação das coisas vivas,
Do seu hálito doce, violento.
Tempo - horas e horas convertidas
No ouro raro e inútil dum lamento...
Tempo como uma ferida no meu lado,
Coração palpitando sobre a lama.
Tempo perdido, sangue derramado,
Resto de amor que se deixou na cama,
Horizonte de guerra atravessado
Pelo corpo audacioso duma chama.
RÍO DE AMOR.
ANTOM LAIA LOPEZ
Águas silênciosas a verter-se
... na amanhâ fria dos desejos.
O río a entrar-nos na espera
longa dum lentissimo sufoco.
As feridas abertas nas bocas
derrotadas.Sangue giado
a morrer molhado no caminho.
Nosso amor-silêncioso verter-
a decorrer na mudez constante
como ilhas solitarias que se
buscam e se perseguem e se
amam como bocas derrotadas.
Águas silênciosas a verter-se
... na amanhâ fria dos desejos.
O río a entrar-nos na espera
longa dum lentissimo sufoco.
As feridas abertas nas bocas
derrotadas.Sangue giado
a morrer molhado no caminho.
Nosso amor-silêncioso verter-
a decorrer na mudez constante
como ilhas solitarias que se
buscam e se perseguem e se
amam como bocas derrotadas.
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