quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O que é o amor?





Talvez brisa sutil, cujo toque acalanta
o botão a florir, em promessa de vida…
Ou será minuano, que, hostil, aquebranta
a palmeira que, em prece, se eleva, incontida?

Arrebenta, revira, destroça, desplanta…
Há de ser vendaval, em loucura homicida?
Ou, bem mais, tempestade, que o peito agiganta
e desperta o queimor da paixão reprimida?

Ah, o amor! Explicá-lo é tarefa impossível…
As lembranças sussurram baixinho: é factível…
Tomo lápis, papel, e me entrego ao labor.

Um silêncio… Saudade… Uma lua tão cheia…
E o poeta que, errante, em minh’alma vagueia,
um soneto plangente começa a compor!


Patrícia Neme

Outono…da vida



Hamilton Afonso

A paleta de cores em tons de
amarelo, castanho e vermelho terra
as folhas caindo, as arvores preparando-se
para o Inverno e suspirando pela Primavera

As primeiras chuvas, o cheiro, bom a
terra molhada, os cogumelos a nascerem em
tufos de vida no chão, juncado de folhas mortas
das florestas de carvalhos

As sementeirasdo pão de centeio e trigo, os nabais
que servirão de forragem aos animais, no Inverno
os soutos com os seus castaheiros prenhes de ouriços
que em partos esforçados se oferecem em castanhas
que aquecem as noites já frias,
a telha vã branca da geada

Tudo isto faz parte das minhas recordações da
infância e juventude, quando as aldeias
nortenhas tinham vida, gente, jovens percorrendo
alegremente as ruas empoeiradas do Verão, enlodadas
das chuvas que caem, com os pés calçados com os
socos de solas de pau de amieiro, e as suas taxas metálicas.

À noite, à volta da lareira, conversando e ouvindo
respeitosamente os seniores transmitindo-nos
a sua imensa sabedoria caldeada na escola da vida

Saudade?

Melancolia?

As duas coisas, mas sobretudo o enorme respeito
por aqueles que me moldaram o caracter, que me ajudaram
a ser homem

A minha gratidão e ternura a todos eles
s seniores da minha infância que tratávamos
com respeito



não cheirei
a maciez da tua pele

não afaguei 
teus formosos seios

não beijei
teus húmidos e sedosos lábios

como ousas saber meus segredos

cheiro-te a pele
afago teus seios
beijo teus lábios

desfolho-me livro precioso
para me leres
com ternura e carinho

nos momentos de melancolia

Emilio Casanova

Alma perdida






Florbela Espanca

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

Li hoje quase duas páginas



Alberto Caeiro 

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.



...uma quentinha de amor

junta uma manhã de domingo
com tua amada
adiciona uma boa
quantidade de carinho
sal em suor quanto baste
muita audácia
na pimenta

deixa que ferva
em lume brando
com tempo suficiente

terás um amor
que satisfaz os dois
a contento

num início de um esplendoroso
domingo

emilio casanova, in "Só & Cia"



apetece-me agora
deitar minhas costas
nos grãos de areia
da praia
respirar o cheiro
das gotas do mar
viajantes no ar
fixar meus olhos
no firmamento azul
segurando a cabeça
nos dedos entrelaçados
com meus joelhos
dobrados
pés enterrados
sim porque não
vou fazer o que me apetece
indiferente a quem pise
junto de meu corpo
indefeso
quero esquecer mundos
de sofrimento
de um lado de outro
à frente atrás
quero parar assim
subitamente
e por momentos
dar-me este presente

emilio casanova, in "So & Cia"