sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Estou Mais Perto de Ti porque Te Amo



Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

Quando Eu não te Tinha



Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
... Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso"

Para Ti



Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

MOMENTOS

LUZ LOPES


...

Finjo que estás
... presente... e me habitas,
como quem sente
esta saudade
em mim...

Finjo que me
abraças... e me envolves,
como quem sonha
um arco-iris
distante...

Finjo que não sei,
o que já sei,
só não finjo
esta SAUDADE
que me habita e me envolve!

[UM BELO POEMA]

MIGUEL TORGA, in DIÁRIO I




... Gostava de escrever hoje um belo poema, forte, quente, luminoso, escarolado, em louvor da vida.
É que, sem saber porquê, respondi há bocado com palavras dum optimismo impressionante a um moço poeta que me exibia a sua decadência precoce. e doía-me a garganta nessa altura!
Mas fui-lhe dizendo que qual morte ou qual cabaça! Vida! Vida conquistada em luta, como a do rebendo do milho que empurra, e consegue levantar o torrão e ver o sol.
- Qual morte, homem de Deus! Você já viu por um acaso um pinheiro suicidar-se?
Gostava de escrever isto num belo poema.

[QUE PODEREI DE MIM MAIS ARRANCAR]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in POESIA 
 


Que poderei de mim mais arrancar
... P'ra suportar o dom da tua mão,
Anjo rubro do vento e solidão
Que me trouxeste o espaço, o deus e o mar?

No céu, a linha última das casas
É já azul, alada, imensa e leve.
Nenhum gesto, nenhum destino é breve
Porque em todos estão inquietas asas.

Depois ao pôr do sol ardem as casas,
O céu e o fogo passam pela terra,
E a noite negra vem cheia de brasas
Num crescendo sem fim que nos desterra.

A vida...



As passagens da vida podem ser encaradas como cenas de filmes, nas quais somos protagonistas de experiências dignas de heróis do cinema, mas que ficam no anonimato do dia-a-dia.


Como heróis e heroínas da nossa própria história, devemos retirar dessas cenas as lições  de crescimento de que necessitamos para viver livremente, sem o peso da culpa e a limitação do medo.


Vivenciar cada momento como aprendiz da vida é ter direito ao elixir da mudança ao final de cada jornada.


A Confiança em nós mesmos, no processo da jornada, são os requisitos para caminhar e aprofundar vivências.


Cada  jornada vivenciada vale a pena.


No final, mudamos interiormente, mas  seremos sempre os mesmos.


M.L