segunda-feira, 11 de março de 2013

MULHER





*JOAQUIM PESSOA*

És tu. Mulher normal. Mulher inteira.
Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.

Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.

Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria!
No ventre a rosa negra de cantar-te!

Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te!

Sísifo





Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga



"Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues..."

(MIA COUTO)



Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Olavo Bilac



Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.

Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.

Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.
(FERNANDO PESSOA).

Tu e Eu Meu Amor



Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Manuel da Fonseca

domingo, 10 de março de 2013

Pulsar




Meu amor, minha Estrela
o meu amor por ti é algo
como o de um distante Pulsar
que emite vibrações do infinito.

Minha Estrela bela e cintilante
que me deslumbras os olhos
por ti transponho o Universo
tal é a luz que me transmites.

Quero agarrar os teus raios
de luz, sentir o teu doce calor
quero te ter nos meus braços
sentir as tuas próprias vibrações.

Olho-te nos olhos e desapareço
volto-me a encontrar num tempo
indefinido, difícil de descrever.
Beijo os teus lábios ardentes,
acabamos-nos por nos fundir
e unir num só corpo numa só alma.

J.M.²