sábado, 7 de julho de 2012

ÉS LINDA…







És linda.
E nem sabes quantos pedaços de beleza
tive de juntar para chegar a esta conclusão.
Para te construir, tive de misturar a conspiração
das searas com a tristeza do choupo, a inquietação
da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente.
E a firmeza repartida dos livros, com a alegria
explosiva dos miosótis e a luz escura das violetas.
Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas,
a paciência das casas à beira da falésia, a espuma
da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso
que se fazem à lua. Acrescentei-lhe a canção das
margens e pequenos pedaços da angústia do olhar.
Não esqueci a intimidade do frio nem a dor branca
que habita o coração dos muros.
Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces,
aos teus músculos prometi a violência das cascatas,
no teu sexo acordei a memória do universo.
A tua beleza está no meu desejo, nos meus olhos,
na minha desigual maneira de te amar.

És linda, repito.
Mas tenta não encarar o que te digo como um elogio.



Joaquim Pessoa in ‘Ano Comum’

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