As palavras do poeta volteiam incessantemente em redor das portas do paraíso e batem implorando a imortalidade. Um grão de poesia basta para perfumar todo um século! O poema é o dedo do poeta apontando para o vôo do pássaro que está além das suas palavras.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
SOLIDÃO
HERCULANO NOVAES DE ARAGÃO
De que vale o ser, se é o ser sozinho?
Não há sentido na vida singular, mas no mundo de hoje é o que mais se encontra. O viver sozinho não basta ao homem, e por mais que a acomodação cubra-lhe os olhos e faça-o acreditar, ainda assim não basta.
Num mundo sozinho, na realidade interior, não há em quem se apoiar. Não há trocas, não há experimentação. E quando cai a noite, é aí que o coração se fecha em si mesmo; a mente, em sua maioria fácil de enganar, se engana. Dorme profundo como uma criança, mas como uma criança órfã, porque a criança sabe que tem o conforto da mãe.
E ao despertar daquele sono agoniante, se depara novamente com a solidão e vê o mundo lá fora, que de nada tem a ver com o seu mundo. De que vale o ser, se é o ser sozinho?
«A CÉU ABERTO»
ANTÓNIO GIL in «A CÉU ABERTO»
« palavra a palavra ergui um arremedo de colunas, início de templo, onde certos dias ainda sonho sustentar a abóbada impossível de minhas noites sem outro abrigo...»
...
tenho confiado ao tempo a tarefa de ir aplanando algumas lajes que fui semeando pelos caminhos que me escolheram.
deixo-as dormir seguro de que hão-de ficar ao nível dos pés dos futuros peregrinos...
« palavra a palavra ergui um arremedo de colunas, início de templo, onde certos dias ainda sonho sustentar a abóbada impossível de minhas noites sem outro abrigo...»
...
tenho confiado ao tempo a tarefa de ir aplanando algumas lajes que fui semeando pelos caminhos que me escolheram.
deixo-as dormir seguro de que hão-de ficar ao nível dos pés dos futuros peregrinos...
GÉNESIS
JORGE DE SENA, in COROA DA TERRA
Nenhum alta te resta que o não sejas
... no breve tempo entre morrer e estar.
E quando não estiveres, como desejas,
não menos pedra o vente há-de encerrar
a perspicácia anónima. Não vejas!
Não queiras adorar nem comparar,
porque não estão suspensos nas igrejas
pálidos do tempo ou sombras do lugar.
Como esta aurora, purgação dourada,
ara serás da noite já entrada,
que, enquanto altiva, a noite é mais funesta.
Tudo não és. Basta que as flores nocturnas
se humilhem, uma a uma, sobre as urnas.
Não entres mais agora: esse te resta.
Nenhum alta te resta que o não sejas
... no breve tempo entre morrer e estar.
E quando não estiveres, como desejas,
não menos pedra o vente há-de encerrar
a perspicácia anónima. Não vejas!
Não queiras adorar nem comparar,
porque não estão suspensos nas igrejas
pálidos do tempo ou sombras do lugar.
Como esta aurora, purgação dourada,
ara serás da noite já entrada,
que, enquanto altiva, a noite é mais funesta.
Tudo não és. Basta que as flores nocturnas
se humilhem, uma a uma, sobre as urnas.
Não entres mais agora: esse te resta.
PEQUENO DIÁLOGO
JOSÉ LUÍS OUTONO, in Da Janela do meu (a)MAR
... Saí da vereda ajardinada do teu passeio…
para mimar a flor do teu gosto…
Segredaste-me…:
- Oferece-me aquela flor matiz sôfrega…
Disse-te…:
- Nunca “matarei” uma flor, para presentear outra flor…
Sorriste… sorrimos e, descemos até à aldeia… para tomar café.
... Saí da vereda ajardinada do teu passeio…
para mimar a flor do teu gosto…
Segredaste-me…:
- Oferece-me aquela flor matiz sôfrega…
Disse-te…:
- Nunca “matarei” uma flor, para presentear outra flor…
Sorriste… sorrimos e, descemos até à aldeia… para tomar café.
PEDRA LUZ
CLÁUDIO CORDEIRO, in UM TUDO NADA ÁGUA
Uma pedra luz um pássaro árvore...
...
A sede é extrema à sombra do silêncio.
Uno-me ao corpo que penteia o mar.
Olho o ar do lume que arde…
As pedras do futuro florescem
a nudez do corpo.
O sol assombra o vazio espelho vida.
Ninguém nasce no mundo.
Tudo o que quero é perder.
Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma
"Por todas as razões e mais uma. Esta é ...a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu".
Joaquim Pessoa, em "Ano Comum"
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