quinta-feira, 1 de março de 2012

Pablo Neruda - Plena mulher



Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas pernas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um so mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.

Pablo Neruda - III

 



Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam minhas asas.
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma.

E em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o sereno às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que cantavas no vento
como os pinheiros e como os hastes.
Como eles és alta e taciturna.
e intristeces prontamente, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Te povoa ecos e vozes nostálgicas.
eu despertei e as vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

Alfons Mucha's art - Serenade

PARAÍSO

DAVID MOURÃO FERREIRA, in INFINITO PESSOAL OU A ARTE DE AMAR




...
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

MISTÉRIO D'AMOR

FLORBELA ESPANCA, in O LIVRO D'ELE




Um mistério que trago dentro em mim
... Ajuda-me, minh’alma a descobrir…
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mas um dia, uma tarde… houve um fulgor,
Um olhar que brilhou… e mansamente…
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:

Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!

A um Passo do Amor...



A um passo do amor estarás a um passo do futuro e a duzentos mil anos do passado.

O teu nome é o nome de todas as coisas-, quando todas as coisas respiram no teu nome.
Entre o sofrimento e a felicidade, muito de ti se espalha pela vida, muita vida te aguarda, muita vida te procura.
Um duplo coração bate dentro do peito e fora de ti.
Tens a sabedoria das crianças e a sabedoria dos velhos. Sabes ferir e beijar e sentes o vento do orgulho.
Pequeninos gestos, grandes pensamentos, constroem um dia excepcional, um amor excepcional, uma violência excepcional.
Todas as noites são uma só noite, tanto desespero pode voltar a ser esperança.
As tuas mãos são uma pátria. Os teus dedos são, umas vezes, o mais difícil dos rebanhos. E outras, os cães que o guardam, quando a verdade é triste e o amor tem a fome e a sede das estrelas.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

Fusão



Entrego-te o meu corpo
em chamas da cor do sangue
que se entorna do cálice.

Entrego-te pétalas soltas
para que formes a flor
que rompe dos teus lábios
e sal do mar
para temperares as lágrimas.

Entrego-te
e entrego-me,
neste derrame de memórias
que ficou talhado no teu corpo
no êxtase da dança ébria
que deixámos inacabada.

Desenlacei o nó
que me estrangulava
e senti o pulsar espasmódico da tua pele.

Entrego-me da mesma forma
com que te entregaste.


Francisco Valverde Arsénio