sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

[DOS CÉUS À TERRA DESCE A MOR BELEZA]

 
 
 
LUIS VAZ DE CAMÕES



Dos Céus à terra desce a mor Beleza,
... Une-se à nossa carne a falá-la nobre;
E sendo a humanidade dantes pobre,
Hoje subida fica à mor alteza.

Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;
Que ao mundo o seu amor descobre,
De palhas vis o corpo tenro cobre,
E por elas o mesmo Céu despreza.

Como? Deus em pobreza à terra desce.
O que é mais pobre tanto lhe contenta,
Que este somente rico lhe parece.

Pobreza este Presépio representa;
Mas tanto por ser pobre já merece,
Que quanto mais o é, mais lhe contenta.

OUTROS NATAIS




Onde a magia dos Natais de outrora
... O presépio dos olhos da infância
São José, a Virgem, o Menino
Figuras modeladas, quase gente
A mostrar-se ao espanto
Dos pastores que vinham
Em fila pelo musgo dos caminhos
Para ofertar cordeiros e presentes.

Onde a azáfama do rumor das mãos
Nos alguidares de barro onde a farinha
A abóbora, os ovos, o fermento
Tomavam forma e gosto tão distantes.

Aonde o sono arredio que não vinha
Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros
Choram saudades de bosques e de estrelas
Sob a caruma de luzes e de enfeites.

Onde o mistério que seguia os passos
Dos adultos no ranger das tábuas
Em nossos passos furtivos de criança
Na ânsia de encontrar em qualquer canto
De barbas e de saco o Pai Natal.

Quantos Natais assim em que a Família
Se reunia inteira à grande mesa
Da sala de jantar tão velha e gasta
Que por magia nessa noite remoçava
A transformar em cristal os vidros baços.

Quantos presépios retidos na memória
Quantos aromas ainda a Consoada
Quantos sons a deixar nos meus ouvidos
Os risos, os beijos, os abraços.

Quantas imagens cingidas na penumbra
Desta lembrança que se fez saudade
Dos rostos, dos gestos, das palavras
Na lonjura das vozes e da Casa.

Noite Divina em que torno a ser criança
Ante o meu olhar adulto e me desperto
Na emoção que nos traz os anos:
O meu Natal é hoje mais concreto
Mas muito menos belo e mais deserto.

Soledade Martinho



SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,in O CAVALEIRO DA DINAMARCA

(5/8)

“...Viajava agora com pressa para embarcar no porto de Génova num dos navios que, no princípio do Verão, sobem da Itália para Bruges, Gand e Antuérpia.
Mas já no fim do caminho, a pouca distância de Génova, adoeceu. Foi talvez do sol que o escaldava enquanto cavalgava por vales e montes ou foi da água que bebeu de um poço onde iam à noite beber os sardões.
Tremendo de febre, foi bater à porta dum convento. Os frades que o recolheram tiveram grande trabalho para o salvar, pois o Cavaleiro parecia ter o sangue envenenado e delirava dia e noite. Nesse delírio imaginava que nunca mais conseguia chegar ao seu país, pois Veneza erguia-se das águas e arrastava-o consigo para o fundo do mar, e as estátuas de Florença formavam exércitos de bronze e mármore que não o deixavam passar.
Os frades trataram-no com chás de raízes de flores, com pílulas de aloés, com xaropes de mel e vinho quente, com pós misteriosos e emplastros de farinha e ervas. A febre foi baixando lentamente e só acabou de todo ao fim de um mês e meio. Então o Cavaleiro quis seguir viagem, mas estava tão fraco, magro e pálido que os frades não o deixaram partir.
Teve de esperar mais um mês no pequeno convento calmo e silencioso. Estendido na sua cela caiada escutava o murmurar das fontes na cerca e os cânticos dos religiosos. Depois, à tarde, passeava no claustro quadrado admirando nas paredes as suaves pinturas dos frescos que contavam os milagres maravilhosos dos santos. Na parede da direita via-se Santo António pregando aos peixes e na parede da esquerda via-se São Francisco fazendo um pacto com o lobo de Gubbio.
No meio do claustro corria uma fonte e em sua roda cresciam cravos e rosas brancas. No céu azul as andorinhas cruzavam o seu voo.
E das colunas, do murmúrio da fonte, das flores, das pinturas e das aves erguia-se uma grande paz como se os homens, os animais, as plantas e as pedras tivessem encontrado um reino de aliança e de amor.
Nesta paz as forças do cavaleiro cresciam dia a dia até que, a cabo de cinco semanas de descanso, ele pôde despedir-se dos frades e continuar o seu caminho.
Então dirigiu-se para Génova.
Mas quando chegou ao grande porto do mar era já o fim de Setembro e os navios que seguiam para a Flandres já tinham partido todos. Percorreu o cais, falou com os capitães, foi à casa dos armadores. A resposta que lhe davam era sempre a mesma: só daí a vários meses poderia arranjar navio para a Flandres.
Primeiro o Cavaleiro ficou desesperado com estas notícias e durante dois dias não comeu nem dormiu. Mas depois recuperou o ânimo e resolveu seguir viagem por terra, a cavalo, até Burges.
Atravessou os Alpes, atravessou os campos, as planícies, os vales e as montanhas da França.
Agora só parava para comer e dormir, ansioso de chegar antes do Natal à sua terra.
Mas quando chegou à Flandres era já Inverno e sobre os telhados e os campos caía a primeira neve.
O Cavaleiro dirigiu-se para a Antuérpia e aí procurou o negociante flamengo, para o qual o banqueiro Averardo lhe tinha dado uma carta.
Encontrou o negociante em sua casa, aquecendo as mãos à lareira, vestido com uma bela roupa de pano verde, larga e debruada de peles pretas. O flamengo recebeu o viajante com grande amabilidade e convidou-o para ficar em sua casa.
Mal se sentaram para jantar o Cavaleiro espantou-se com o paladar da comida que estava temperada com especiarias para ele desconhecidas.
O negociante riu-se, abanou a cabeça e disse:
- Vê-se que conheces mal o mundo novo.
Indignado com estas palavras o Cavaleiro começou a narrar a sua viagem.
Quando ele terminou o flamengo disse:
- Contaste uma bela história, mas daqui a pouco vai chegar alguém que te contará histórias muito mais espantosas.
De facto, passado pouco tempo, bateram à porta da casa, ouviram-se passos na escada, e depois penetrou na sala um homem alto e forte, de aspecto rude, pele queimada pelo sol e andar baloiçado.
-Este é um dos capitães dos meus navios – disse o negociante -. Voltou à dois dias duma viagem.
O recém-chegado poisou em cima da mesa dois pequenos cofres e disse:
- Aqui estão três amostras das mercadorias que trago.
O primeiro cofre estava cheio de pequenas pérolas, o segundo cofre estava cheio de oiro e o terceiro cofre estava cheio de pimenta.
Espantou-se o Cavaleiro com aquilo que via, pois naquele tempo a pimenta era quase tão rara como o oiro.
O dono da casa pôs mais lenha na lareira, serviu vinho aos seus hóspedes, e os três homens sentaram-se em frente do lume.
Então, a pedido do negociante, o capitão começou a falar das suas viagens. Contou como desde muito novo tinha seguido a carreira de marinheiro viajando por todos os portos da Europa desde o mar Báltico até ao Mediterrâneo. Mas era sobretudo entre a Flandres e os portos da Península Ibérica que viajava. Um dia, porém, teve desejo de ir mais longe, de ir até às terras desconhecidas que surgiam do mar. Então resolveu alistar-se nas expedições portuguesas que navegavam para o sul à procura de novos países. Veio a Lisboa e aí embarcou numa caravela que partia a reconhecer e a explorar as costas de África.
Seguiram das margens do Tejo para as Canárias, onde pararam alguns dias. Depois continuaram viagem, aproximaram-se da terra africana, dobraram o cabo Bojador e seguiram, à vista das costas desertas, queimadas pelo sol, sem árvores, e sem homens. Junto ao cabo Branco ancoraram o navio num abrigo formado por altos penedos. Então os homens de pele sombria, envolvidos em mantos flutuantes e montados em camelos, vieram à orla da praia negociar com os portugueses. E as caravelas continuaram a navegar para o sul, muito para o sul. Uma brisa constante inchava as grandes velas e os mastros e os cabos gemiam docemente. Até que, para além das intermináveis costas nuas e vazias, sem árvores e sem sombra, surgiam as primeiras palmeiras. Depois começaram a aparecer espessas e verdes florestas que cobriam toda a terra desde as praias brancas até aos montes azulados. E dessas florestas surgiam homens nus e negros que embarcavam em pirogas e rodeavam os navios. Os marinheiros portugueses traziam ordem de se entenderem com eles. Mas isto era difícil. Em geral as pirogas não chegavam ao alcance dos navios e outras vezes mesmo os negros desapareciam entre o arvoredo mal as caravelas ancoravam. Então os marinheiros que desembarcaram eram recebidos com flechas envenenadas dos homens escondidos.
Porém, havia paragens onde os africanos e os portugueses já se conheciam e negociavam. E às vezes, em lugares da costa onde nunca um navio tinha parado, acontecia serem acolhidos com festa e alvoroço. Então, bailando e cantando, os negros vinham ao encontro dos navegadores que, para corresponderem ao bom acolhimento, bailavam e dançavam também à moda da sua terra...”

(CONTINUA)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

QUANTA VONTADE DE SONHAR JUNTO AO MAR NUMA ALVORADA COMO A DE HOJE



"(...) Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade."
...
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in MAR NOVO


LIBERDADE


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NATAL

 
 
 
 
FERNANDO PESSOA, in POESIAS


NATAL

... Natal...
Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

RECEITA DE ANO NOVO



( Carlos Drummond de Andrade )

 
 Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

A MALDIÇÃO DO HERÓI



Zeus em forma de “chuva de Ouro” engravida Dânae. O filho dela, Perseu é mantido em segredo, porém, Acrísio descobre. Mata a ama, achando que ela facilitou a entrada de alguém, não acredita que o neto é filho de Zeus. Manda construir um cofre de madeira e põe dentro a filha e o neto e o lança ao mar.
Eis que aquele pequeno cofre flutua pelas ondas e é recolhido ao mar pelo pescador Dícties( Rede) na ilha de Sérifo que é governada pelo tirano Polidectes. O pescador acolhe os dois, Perseu cresce e se torna um forte rapaz. Ao receber no palácio a mãe e o filho, se apaixona perdidamente por ela, mas teme o filho. Durante a festa de aniversário o tirano pergunta aos rapazes o que lhe ofereciam de presente. Todos respondem que dariam um cavalo, Perseu diz que lhe daria a cabeça da Medusa.
No outro dia, os rapazes trazem o cavalo de presente, Perseu nada lhe dar. Polidectes então o ameaça de que terá que ir buscar a cabeça da Medusa ou o rei violentará sua mãe. Perseu como havia dado a palavra, parte para sua busca. Aqui começa o rito iniciático por excelência, a separação da família, a ida para fora da cidade, suas aventuras e o retorno adulto.