quarta-feira, 7 de março de 2012

Infinitamente Ser




Na imensidão da terra imensa
Aquieto o meu sonho
... Na pedra da vontade
Descalço o passado
Desses passos envelhecidos
E na bússola do Tempo
Descubro o amanhecer
De infinitamente Ser

Renata Albuquerque

PROMESSA DE UMA NOITE

MIA COUTO, in RAÍZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS



cruzo as mãos
... sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

ESPERA-ME

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in CORAL



Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.

Nem de mais nem de menos...



Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
... Mas amar-te como próximo, sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar
Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for a hora de calar
E sem calar quando for a hora de falar
Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amiga,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças !
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias

Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de março de 2012

Insónia


Me desviei do caminho por o teu olhar

Para não por coincidência encontrar

Um amor perdido, uma amante talvez

Em tempos imemoriais lá de trás.



Perante imenso poder que sinto

Sei que foi algo deslumbrante

Sei que te conheço por completo

do mais fino e delicado fio teu

cabelo sedoso, belo e esguio

cheiroso dos campos de alfazema.



Reminiscências de sensações eu tenho

Minha amada, loucura que provocamos

de tua pele, te tocar imagino eu te ter

Nos tempos longínquos de trás.



Do teu corpo macio e resplandecente

me apanhas-te na tua imensa teia

não de aranha, mas de rainha uma vez mais

prisioneira no teu próprio castelo

comum para todos os demais mortais.



Ó moça, como nós fomos lá trás

perdidos, por instintos de amor

ao sabor dos demais sabores

por campos semeados de alfazema

fomos colher os frutos vezes sem conta.



Tomando por completo, todo o seu esplendor

ó amada cultivamos e colhemos tanto amor.



J.M.²

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Amor



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
...
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..

Fernando Pessoa

NA JANELA DO TEMPO

GISELA ROSA, in VASOS COMUNICANTES
 




A mulher que escutas na janela do tempo
... lavra a dor com um vibrante sorriso interior
cantando a melodia do não dito
com a língua dos silêncios encontrada

a chama desse corpo aceitou o infinito azul
e renasceu com a magia de um templo antigo
quebrando os muros com a subtil harmonia dos anjos
e se nos seus dedos vislumbras o azul e em seus olhos uma ferida viva
dir-te-ei que o sorriso transmutou a dor ao encontrar-te
na unidade originária dos poemas
na bondade nua que nutres com as mãos

e a janela solitária entreaberta revelando o ar
é agora uma porta aberta para o mar
descobrindo a magia do tempo horizontal