terça-feira, 10 de setembro de 2013

NOCTURNO



Trouxe-te a noite mais uma vez amor, 
Trouxe-te a noite mais uma vez aos meus sonhos,
Trouxe-te a noite mais uma vez aos meus braços
Num tão demorado abraço com jardins de camélias
De cetim, de bocas abertas rubras e ardentes
E as pétalas todas a entornarem mel
Sobre os nossos corpos pedintes e gementes,
Perfumados com as essências mais delicadas
Do rosmaninho, das saudades e dos lírios em flor.
Só flores roxas. A minha cor. A cor da dor, da dor do amor.
Sabíamos os dois que desta vez o nosso abraço
Não queria só um abraço. E houve um beijo.
Aquele beijo demorado, sussurrado,
Quase nu de palavras, que só permitia silêncios
E olhares afundados, extasiados, ancorados
Em mares nunca antes por nós navegados.
Os meus olhos vinham-me dizendo, faz tempo,
Que ficariam cegos se não olhassem os teus olhos,
Como se fossem searas imaturas de pão
A precisarem do sol doirado e intenso do verão.
E os teus olhos eram dois sóis escaldantes
E profundos e os meus olhos, as searas verdes do trigo
A quererem ficar maduras e prontas para a ceifa.
E deixámos que eles se conhecessem, falassem,
Libertassem e gritassem uma alegria que andava contida
Até ficarem mudos de tantas verdades antes escondidas.
E, em olhares presos com amarras, num silêncio
Que dizia tudo, eles disseram a nossa verdade,
A nossa realidade. E nós dois, perdidos no tempo
Que estava a nosso favor, bebemos um do outro
Todo o néctar que estava em nós guardado
E saciámos nele toda a nossa sede de aromas puros.
Era tanta a seiva de Primaveras infinitas julgadas extintas,
Que tínhamos em nós guardadas. Os meus olhos
Entornavam lágrimas grossas de felicidade inteira
Que tu bebias até à última gota
Como se quisesses lavar as minhas feridas todas.
E continuámos abraçados e eu beijava-te,
Beijava-te, beijava-te sem parar
Os teus olhos encostados, o teu peito todo aberto para mim
E a tua boca onde a minha, ajoelhada, só queria rezar
A pedir que tudo não fosse um sonho.
Tinha medo! Medo de acordar! Tu eras para mim
O meu amor erguido das ruínas de castelos desmoronados
De onde eu milagrosamente, com vida, tinha escapado.
E sussurrava-te tantas e tantas vezes ao ouvido
Até que a tua boca caiu na minha boca a calá-la
Num beijo, agora embriagado com os matizes de sonho
De um sol de entardecer, cheio de brilhos da cor do fogo,
Meu amor, meu amor já feito flor, meu amor …
E adormecemos os dois com os braços enleados,
E adormeceu também a noite na madrugada
Que acordou com o alvoroço da Natureza a cantar,
E eu acordei com ela e vi que não estavas ali
E comecei a sangrar em prantos agudos
Que eu canto… que eu não paro de cantar para ti.
E onde estiveres, se me ouvires eu te peço,
Por favor, tira-me daqui!...

Margarida Sorri
bas

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