domingo, 29 de janeiro de 2012

A CADA UM DOS MEUS DEDOS

TIAGO PATRÍCIO, in O LIVRO DAS AVES



A cada um dos meus dedos
contei o princípio do teu nome
soletrei a tua língua de areia
e os anéis da tua pele

A caminho dos teus pés
ponderei as razões das caravanas
e do vento que sobe ao teu vestido
Nas tuas pernas de veias túmidas de hena
há filigranas de paisagens
e tripulantes escuros de plumas azuis

A tua pele curtida é argamassa de gerações
de mulheres migratórias
de ruínas e linho intumescido no seio

Os teu cabelos abrem o tempo
e lembram rotas da seda e dromedários
rendas, cortinas e o frio do deserto
entre os corpos súbitos
E no teu leito repousam 15 mil homens
sucessivos e a concepção das raças

Há barcos que repousaram no teu oásis ondulante
com mastros e velas soberbas à tua passagem
peixes que te reconhecem do outro lado do mar
como na enseada do teu ventre

Recuperas das viagens e das cidades prometidas
do teu corpo inscrito no cansaço, nas pedras de sal
dos teus olhos, onde a sombra das colinas ao perto
revela ainda erupções e apelos de humidade

Os teus filhos númidas, púnicos e berberes
têm do rosto a recordação da disputa
e dos teus braços brancos as mãos ásperas
que são todas as noites um voo sentido
antes do acontecimento ao teu corpo

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