sábado, 28 de janeiro de 2012

O sol o muro o mar



 Sophia de Mello Breyner Andresen



O olhar procura reunir um mundo que foi

destroçado pelas fúrias.

Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para

manter intacto o alvoroço do início.

Ruas metade ao sol metade à sombra.

Janelas com as portadas azuis fechadas: violento

azul sem nenhum rosto.

Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência

intensa como o arfar de um toiro.

Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos

pátios dos terraços.

Obscuros interiores rente à claridade, secretos e

atentos: silêncio vigiando

o clamor do sol sobre as pedras da calçada.

Diz-se que para quem um segredo não nos devore é

preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço

ou de um pátio.

Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para

o exterior o medo.

Muros sem nenhum rosto morados por densas

ausências.

Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte,

os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso

amarelo, a veemência da cal.

Muro de taipa que devagar se esboroa — tinta que

se despinta — porta aberta para o pátio de chão

verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e

espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto

para a vida sagrada do homem.

Muro branco que se descaia e azula irisado de

manchas nebulosas e sonhadoras.



A porta desenha a sua forma perfeita à medida do

homem: as cores do cortinado de fitas contam a

nostalgia de uma festa.

Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.

Nenhum rosto, nenhum vulto.

As marcas do homem contando a história do

homem.



No promontório o muro nada fecha ou cerca.

Longo muro branco entre a sombra do rochedo e

as lâmpadas das águas.

No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto

de escamas e brilhos como na infância.

O mar ergue o seu radioso sorris de estátua arcaica.

Toda a luz se azula.

Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do

lugar sagrado




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