quinta-feira, 12 de julho de 2012

Poema VI




Te recordo como eras no último outono. 
Eras a boina cinza e o coração em calma. 
Em teus olhos pelejavam as chamas do crepúsculo. 
E as folhas caiam na água de tua alma. 

Apegada a meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhiam tua voz lenta e em calma.
Figueira de estupor em que minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre minha alma.

Sinto viajar teus olhos e é distante o outono:
boina cinza, voz de pássaro e coração de casa
fazia onde emigravam meus profundos anseios
e caiam meus beijos alegres como brasas.

Céu desde um navio. Campo desde os cerros.
Tua recordação é de luz, de fumaça, de tanque em calma!
Mais além de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam em tua alma.

PABLO NERUDA

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